O Espiritismo é individualista?

Em uma postagem de setembro de 2012, coloquei algumas observações sobre o Espiritismo e seus princípios, e sobre o comunismo e seus princípios.

Em resumo, os princípios comunistas, ali elencados, iriam na contramão dos princípios espíritas e, portanto, concluí tal postagem com a afirmação que, apesar de haver inúmeros espíritas que se dizem comunistas, ser espírita e comunista seria uma incoerência.

É a postagem com mais comentários que tenho. Nos comentários vi que houve muita controvérsia com a seguinte parágrafo que usei:

"Primeiro, o comunismo se baseia na coletividade. O pensamento e as ações são todas dentro de um arranjo da coletividade. Os seres são tratados sempre como fazendo parte da coletividade e o seu comportamento é o comportamento do coletivo. O Espiritismo, ao contrário, é individualista. Para a D.E., o indivíduo é o responsável pela sua evolução (a qual ocorre em contato com o semelhante), da mesma forma é nele que recai a lei de causa e efeito (a despeito das chamadas provações coletivas). Seu comportamento é único e cada qual tem a sua parcela e ação e responsabilidade, que é sempre individual (a despeito de viver em sociedade). O pensamento espírita é, pois eminentemente individualista."

Muitos comentaristas afirmaram que o parágrafo está errado e que o Espiritismo não é individualista. Daí a questão proposta nesta postagem.

Vamos ver...

Conceitos de individualismo:

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Dicionário Michaelis:

individualismo
in·di·vi·du·a·lis·mo

sm
1 Filos Doutrina pouco solidária que valoriza a autonomia individual, em detrimento da hegemonia da coletividade.
2 Econ, Filos, Polít Teoria ética, econômica ou política que faz prevalecer o direito individual sobre o coletivo.
3 Em ética, conceito em que os valores se definem com base no indivíduo.
4 Filos Doutrina que preconiza a importância ou o valor da pessoa e procura diminuir o papel da tradição e autoridade como fatores determinantes do pensamento e da ação.
5 Biol Associação de dois organismos, interdependentes nutricionalmente, que forma um indivíduo distinto, diferente de ambos, por sua forma estrutural e condições de vida.
ETIMOLOGIAder de individual+ismo, como fr individualisme.

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Dicionário Priberam:

in·di·vi·du·a·lis·mo
(individual + -ismo)
sm
Sistema oposto ao de associação.

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Da Wikipedia:

Individualismo é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a liberdade do indivíduo frente a um grupo, à sociedade ou ao Estado.

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Resumindo: individualismo é simplesmente colocar o indivíduo, isto é, a sua liberdade, o seu livre-arbítrio e, claro, a responsabilidade pelos seus atos, acima do coletivo de que faz parte, qualquer que seja este coletivo.

Quando aplicamos o pensamento individualista para análise de um fenômeno qualquer, temos o individualismo metodológico. Nele, parte-se do ser humano e depois se chega na sociedade; portanto, a sociedade é o resultado das interações individuais soberanas. O oposto do individualismo é o coletivismo; aplicando-se o pensamento coletivista sobre um fenômeno qualquer, temos primeiro a sociedade determinando o comportamento e por último o indivíduo.

É tão somente a isso que nos referimos quando dizermos que a D.E. é individualista em seus princípios, pois todos eles trazem, em seu bojo, a ideia de que o indivíduo é soberano por seus atos, suas escolhas, seus valores e suas crenças.

Exemplo: um indivíduo escolhe, nesta encarnação ser um assaltante. A visão espírita, obviamente, é que a responsabilidade da escolha é do indivíduo e que, em se tornando assaltante e delinquindo, irá criar para si um futuro de sofrimento e remorso, e isso independentemente se ele tenha reencarnado em contato ou não com os vícios.

Na visão antagônica, isto é, coletivismo, o comportamento individual é determinado pelo ambiente em que se vive, portanto, no exemplo anterior, em uma visão coletivista, o indivíduo que resolve ir para a senda do crime não é completamente responsável por esta escolha, pois a sociedade pode tê-lo "forçado" a agir daquela maneira. Portanto a responsabilidade individual é reduzida (ou mesmo extinta).


A Doutrina Espírita, conforme a codificação kardequiana e, mais ainda, complementada pelos escritos de Chico Xavier e Divaldo Franco, é até prolixa em dizer que a responsabilidade individual é primordial e sobrepõe a todas as outras:


" 'Vai, e não peques mais.'
O ensinamento de Jesus é suficiente e expressivo.
O Médico Divino proporciona a cura, mas se não a conservamos, dentro de nós, ninguém poderá prever a extensão e as consequências dos novos desequilíbrios que nos sitiarão a invigilância." (Emmanuel, livro Pão Nosso, capítulo 50 - Preserva a Ti Própio)

"— Galileu, que fazes na cidade?
— Passo por Jerusalém, buscando a fundação do Reino de Deus! exclamou o Cristo, com modesta nobreza
— Reino de Deus? tornou o sacerdote com acentuada ironia. E que pensas tu venha a ser isso?
— Esse Reino é a obra divina no coração dos homens! esclareceu Jesus, com grande serenidade.
(...) — Entretanto, propões-te realizar uma obra divina e já viste alguma estátua perfeita modelada em fragmentos de lama?
— Sacerdote replicou-lhe Jesus, com energia serena —, nenhum mármore existe mais puro e mais formoso do que o do sentimento, e nenhum cinzel é superior ao da boa-vontade." (Humberto de Campos, livro Boa Nova, cap. 3 - Primeiras pregações)

"Em análogo alicerce, as Inteligências humanas que ombreiam conosco utilizam o mesmo fluído cósmico, em permanente circulação no Universo, para a Co-criação em plano menor, assimilando os corpúsculos da matéria com a energia espiritual que lhes é própria, formando assim o veículo fisiopsicossomático em que se exprimem ou cunhando as civilizações que abrangem no mundo a humanidade Encarnada e a Humanidade Desencarnada.
Dentro das mesmas bases, plasmam também os lugares entenebrecidos pela purgação infernal, gerados pelas mentes desequilibradas ou criminosas nos círculos inferiores e abismais, e que valem por aglutinações de duração breve, no microcosmo em que estagiam, sob o mesmo princípio de comando mental com que as Inteligências Maiores modelam as edificações macrocósmicas, que desafiam a passagem dos milênios.
Cabe-nos assinalar, desse modo, que, na essência, toda a matéria é energia tornada visível e que toda a energia, originariamente, é força divina de que nos apropriamos para interpor os nossos propósitos aos propósitos da Criação, cujas leis nos conservam e prestigiam o bem praticado, constrangendo-nos a transformar o mal de nossa autoria no bem que devemos realizar, porque o Bem de Todos é o seu Eterno Princípio." (André Luiz, livro Evolução em Dois Mundos, cap. 1, item Co-criação em Plano Menor)

"A pessoa é, acima de tudo, a sua mente. O que elabora, torna-se; quanto cultiva, experimenta." (Joanna de Ângelis, livro O Ser Consciente, cap. 6 - A Pessoa)


E claro:

"A felicidade está na razão direta do progresso realizado, de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto outro, unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar distinto. Ainda que juntos, pode um estar em trevas, enquanto que tudo resplandece para o outro, tal como um cego e um vidente que se dão as mãos: este percebe a luz da qual aquele não recebe a mínima impressão.
Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço.
(...)
O progresso nos Espíritos é o fruto do próprio trabalho; mas, como são livres, trabalham no seu adiantamento com maior ou menor atividade, com mais ou menos negligência, segundo sua vontade, acelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte, a própria felicidade" (Allan Kardec, livro O Céu e o Inferno, cap. 3 - O Céu)

Uma citação de uma fonte um tanto inesperada (talvez choque alguns leitores):

"A grande iniciação é assim, vertida gota a gota, a fim de que os seres sejam dela melhor impregnados e se submetam à regra soberana e universal do bem e do belo. Pois é nesse esforço, que faz cada um deles para se elevar à alta concepção da beleza física e moral do mundo, que se encontra a fonte de todos os prazeres intelectuais e o móvel de todo o progresso.
Do ponto de vista social, como do ponto de vista individual, na realização da lei do bem e do belo permanece a finalidade essencial, a regra e a recompensa dos esforços comuns. Cada um deve concorrer ao seu alcance para a ordem e harmonia do conjunto." (Léon Denis, Socialismo e Espiritismo, cap. 2)

Portanto, a conclusão básica que se chega ao analisarmos os textos espíritas é que o Espiritismo é sim individualista, isto é, coloca o indivíduo sobre o coletivo, a responsabilidade individual sobre a coletiva. E sim, o individualismo metodológico é a melhor alternativa para uma análise espírita.

Ser espírita é acreditar que se tem livre-arbítrio. O livre-arbítrio traz, em seu bojo, a responsabilidade individual.

Talvez o grande problema nesta análise toda, seja o fato de que a Doutrina Espírita prega a caridade como a salvação de qualquer um. E isso está correto. O Espírita deve usar de caridade como guia basilar de ação. Mas, querer a caridade, querer o bem do próximo, agir com consciência para que o próximo melhore, não é socialismo, nem tampouco coletivismo.

Se você, caro leitor, acha que só porque quer um mundo melhor, lhe torna socialista, repense os seus conceitos. Se você acha que para melhorar a humanidade, tem que melhorar a si mesmo, então você é individualista. E essa é uma crença espírita.

Abraços a todos

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